Antes de compartilhar, investigue: o que os comentários nas redes revelam sobre a comunicação climática?
- Bruna Siqueira Santos

- 20 de ago.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 7 dias

Por Bernardo Hentchen Wloch
Profa. Dra. Maria Carolina Scheffer
Prof. Me. Vitor Mateus Rangrab Galvão
Profa. Dra. Bruna Siqueira Santos.
Pesquisa desenvolvida por um jovem cientista GYCP, bolsista PIBIC-EM/UNIVALI mostra como as redes sociais podem se transformar em espaços de investigação, educação climática e ciência cidadã
Todos os dias, previsões meteorológicas, alertas, imagens de eventos extremos e opiniões sobre as mudanças climáticas circulam pelas redes sociais. Junto com essas publicações aparecem comentários de medo, dúvida, contestação, esperança, experiências pessoais e, muitas vezes, informações sem fonte.
Mas o que podemos aprender ao observar essas interações?
Essa pergunta orientou uma pesquisa de iniciação científica desenvolvida por Bernardo Hentchen Wloch - 16 anos, estudante bolsista do PIBIC-EM, sob orientação da profa. Dra. Maria Carolina Scheffer e apoio cinetifíco da profa. Dra. Bruna Siqueira Santos. O trabalho integra o projeto “Juventude e ciência cidadã: mapeamento de emergências climáticas SC”.
Mais do que contar comentários, a pesquisa procurou compreender como as pessoas reagem, interpretam e se posicionam diante de conteúdos climáticos publicados nas redes sociais.
Antes de compartilhar uma informação sobre o clima, é necessário investigar: quem publicou, quais evidências foram apresentadas e o que ainda não sabemos?
Como a pesquisa foi realizada?
O estudante acompanhou publicações digitais relacionadas ao clima na rede social Instagram, usando #ClimaSC registrou informações sobre as postagens e os comentários dos usuários.
A base analisada reuniu:
43 postagens monitoradas;
comentários extraídos de 31 postagens;
397 linhas de registros;
391 comentários com conteúdo textual válido.
Cada comentário foi considerado uma unidade de análise. Os registros foram organizados em categorias como manifestações esperançosas, alarmistas, negacionistas, experiências pessoais, ecoansiedade, justiça climática, literacia climática, ativismo, soluções e outros conteúdos.
Para proteger os usuários, não foram divulgados nomes, perfis ou trechos que pudessem permitir sua identificação.
O que apareceu nos comentários?
1. As reações emocionais foram frequentes
Entre os comentários classificados, apareceram manifestações de medo, espanto, preocupação, alívio, esperança e apelos religiosos.
A categoria inicialmente denominada “alarmista” recebeu 51 marcações. Entretanto, a própria análise mostrou que esse termo precisa ser utilizado com cautela. Expressar medo diante de uma situação de risco não significa necessariamente exagerar ou produzir alarmismo.
Por isso, pesquisas futuras devem distinguir melhor:
preocupação diante de um risco real;
comunicação preventiva;
medo ou sofrimento climático;
exagero e sensacionalismo.
2. As pessoas relacionaram as publicações às próprias experiências
Foram identificadas 23 manifestações associadas a experiências pessoais. Nesses comentários, os usuários mencionavam lugares, acontecimentos vividos, mudanças percebidas no cotidiano ou comparações com outros eventos.
Esse resultado chama atenção para a importância do território na comunicação climática. As pessoas não interpretam uma informação apenas a partir de dados científicos: elas também recorrem às memórias, vivências e condições concretas dos lugares onde vivem.
3. Também apareceram dúvidas e contestações
A categoria “negacionistas” reuniu 12 marcações. Contudo, a análise revelou um limite importante: nem toda discordância em relação a uma previsão meteorológica representa negação das mudanças climáticas.
Uma pessoa pode:
questionar uma previsão específica;
desconfiar da fonte;
contestar a forma como a informação foi apresentada;
divulgar desinformação;
negar evidências científicas sobre as mudanças climáticas.
Essas posições não são equivalentes. Por isso, precisam ser analisadas separadamente.
4. Poucos comentários apresentaram soluções ou formas de ação
A pesquisa encontrou poucas manifestações diretamente relacionadas a propostas de solução, justiça climática ou mobilização coletiva:
3 registros de ativismo;
2 registros de justiça climática;
nenhuma ocorrência classificada inicialmente como solução.
Esse resultado não significa que os usuários das redes sociais sejam indiferentes ou não estejam dispostos a agir. Ele mostra apenas que, no conjunto de comentários coletado, predominavam reações imediatas, e não discussões mais elaboradas sobre políticas públicas, responsabilidades ou ações coletivas.
O que a pesquisa não permite afirmar?
Os resultados dizem respeito exclusivamente ao corpus digital analisado. Eles não representam a opinião da população catarinense nem permitem avaliar o que os estudantes aprenderam sobre mudanças climáticas.
Desafio para jovens: torne-se um detetive do clima
Você recebeu uma postagem sobre uma tempestade, uma onda de calor, uma enchente ou outro evento climático. Antes de curtir ou compartilhar, faça cinco perguntas:
1. Quem publicou?
É um órgão oficial, uma instituição científica, um veículo de comunicação, um influenciador ou um perfil anônimo?
2. Qual é a data da publicação?
Imagens antigas são frequentemente reutilizadas como se mostrassem acontecimentos recentes.
3. A postagem apresenta uma fonte?
Procure boletins meteorológicos, notas técnicas, estudos científicos ou informações de instituições reconhecidas.
4. O título corresponde ao conteúdo?
Títulos muito dramáticos podem simplificar, exagerar ou distorcer a informação apresentada.
5. A informação aparece em outras fontes confiáveis?
Compare a postagem com informações da Defesa Civil, de instituições meteorológicas, universidades e órgãos públicos.
Comunicação responsável não significa esconder os riscos. Significa apresentar evidências, reconhecer incertezas e oferecer orientações que ajudem as pessoas a compreender e enfrentar esses riscos.
Proposta de atividade para professores
Oficina: investigar antes de compartilhar
A atividade pode ser desenvolvida com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.
Objetivo
Analisar criticamente conteúdos climáticos publicados nas redes sociais, diferenciando evidência, opinião, experiência pessoal, incerteza, desinformação e comunicação preventiva.
Desenvolvimento
1. Seleção da postagem
O professor escolhe uma publicação sobre um evento climático relacionado ao território dos estudantes.
2. Análise da linguagem
A turma identifica:
o título;
as imagens utilizadas;
a fonte;
a data;
as evidências apresentadas;
as emoções provocadas;
as orientações oferecidas ao público.
3. Verificação
Os estudantes comparam a postagem com fontes oficiais, estudos científicos ou registros territoriais.
4. Leitura dos comentários
Sem expor os nomes dos usuários, a turma observa se os comentários apresentam:
medo ou preocupação;
experiências pessoais;
dúvidas;
explicações;
contestação;
desinformação;
propostas de ação;
humor ou ironia.
5. Produção juvenil
Os estudantes elaboram uma nova publicação sobre o tema, contendo:
informação verificada;
indicação das fontes;
explicação sobre as incertezas;
relação com o território;
orientação prática para a comunidade.
Questão para o debate
Como comunicar um risco climático sem provocar pânico, minimizar o problema ou ocultar as incertezas?
Juventude, ciência cidadã e comunicação responsável
A experiência mostra que estudantes do Ensino Médio podem participar de diferentes etapas de uma investigação científica: coleta, organização, classificação, interpretação e comunicação dos dados.
Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia que esse processo precisa ser acompanhado por critérios metodológicos, reflexão ética e orientação científica. Em pesquisas com redes sociais, o fato de um comentário estar publicamente acessível não elimina os riscos de exposição ou identificação de seus autores.
A contribuição mais importante do trabalho está justamente nessa aprendizagem: produzir conhecimento científico também significa reconhecer o alcance e os limites dos próprios dados.
A investigação desenvolvida por Bernardo oferece um ponto de partida para novas ações do Observatório, como oficinas de verificação de informações, análise da linguagem de risco, cartografia das percepções climáticas e produção de conteúdos elaborados por jovens com base em evidências.
Pesquisa: Juventude e ciência cidadã: mapeamento de emergências climáticas /SC. Bolsista PIBIC-EM: Bernardo Hentchen Wloch, estudante bolsista do PIBIC-EM/UNIVALI, sob orientação da profa. Dra. Maria Carolina Scheffer. Orientadora. Período dos registros analisados: outubro de 2025 a maio de 2026. Realização: Observatório de Educação Ambiental Climática/SC
Os resultados apresentados têm caráter descritivo e exploratório. Não representam a opinião da população nem permitem generalizações sobre jovens, professores ou comunidades escolares.
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